sexta-feira, julho 09, 2004

 

Qual é o valor de uma vida?

O espírito natalício obriga-nos a reflectir sobre outro tipo de asssuntos que não os nossos pequenos problemas do dia-a-dia. Assuntos mais profundos, por vezes até perturbadores, mas que dão sentido à nossa vida em sociedade. É o caso da interrupção voluntária da gravidez, normalmente designada por aborto.
Provavelmente, seria mais fácil para mim falar-vos da pouca dignidade das comemorações do Natal na cidade do Montijo, relembrando o presépio colocado no cimo do coreto a imitar um concerto de rock, os figurinos decapitados e alvos de vandalismo, a feira de Natal e os seus visitantes invisíveis, ou até, e para referir um dos aspectos positivos, a magnífica iluminação de Natal do Santuário da Nossa Sra. da Atalaia, que cada vez mais se posiciona como o altar de toda a Região.
Contudo, quero iniciar este novo ano de 2004 com um tema superior a todas estas pequenas questões que, por vezes, nos retiram o tempo de discutir os assuntos verdadeiramente importantes.
Nas últimas semanas temos sido testemunhas de algumas atitudes irresponsáveis dos partidos da oposição face ao aborto. A CDU, o BE e o PS transformaram o julgamento de mulheres que praticaram aborto e o indulto presidencial a um enfermeira num show off político a favor do aborto. Também no Montijo, na última Assembleia Muncipal de 2003, quando se deveria discutir o orçamento da Autarquia e dos SMAS para 2004, que contém irregularidades puníveis por lei, o PS e a CDU apresentaram duas moções sobre a descriminalização do aborto, ignorando que esta questão deveria ser reservada aos fóruns competentes, nomeadamente a Assembleia da República e o Governo.
Contudo, apesar da forma irresponsável com que os partidos de esquerda tratam a questão, o aborto é um problema que afecta toda a sociedade portuguesa e que deve ser assumido como uma temática que diz respeito à consciência individual de cada cidadão.
Todos somos a favor da vida humana e o aborto não pode ser considerado um método de contracepção. A prevenção do aborto é a única solução possível para o problema e esta passa pela adopção de medidas dirigidas aos jovens nas áreas de planeamento familiar, formação sobre a sexualidade, acesso a meios contraceptivos e também na constituição de sistema nacional que facilite a adopção e o acolhimento de recém-nascidos que não podem ser criados pelos pais naturais. Só com uma formação cívica forte e insituições sociais de apoio a pais carenciados, a sociedade portuguesa será capaz de responder eficazmente ao problema do aborto.
É preciso compreender que na barriga de uma grávida está depositada uma vida, que é única e irrepetível, sagrada desde a sua concepção, e que cabe aos pais, mas também a toda a sociedade, protegê-la e tudo fazer para que possa viver, da melhor maneira, entre nós.
Desta forma, em tempos conturbados como os que actualmente vivemos, com uma grave crise de valores, princípios e causas, temos de enviar sinais claros para a sociedade em termos de responsabilização individual (dos pais) e colectiva (de toda a sociedade) para o valor de uma vida humana. As propostas dos partidos de esquerda vão no caminho errado da desresponsabilização e do facilitismo face a um grave problema.
Mesmo os que defendem a despenalização do aborto concordam que esta prática deve ser evitada e apenas utilizada em último recurso. Ora, se o que queremos é que não se pratiquem abortos, porquê facilitá-los?

Publicado em Jornal do Montijo, 09/01/2004
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