sexta-feira, julho 09, 2004

 

O Erro da Tourada “Cidade do Montijo”

As tardes de Agosto correm quentes e as merecidas férias proporcionam a actualização de algumas leituras há muito programadas mas nem sempre concretizadas. Entre os livros eleitos está “As Praças de Touros do Montijo” de Rui Aleixo, um livro ligeiro e bem ilustrado acerca das tradições tauromáquicas do nosso concelho, pautado por um louvável equilíbrio entre a emoção do escritor e o rigor científico das afirmações.

Vem este tema à baila devido à realização hoje à noite da Tourada Cidade do Montijo, inserida nas comemorações da elevação do Montijo a cidade.

Mais uma vez, o cartel apresentado apresenta um erro de “casting”, de escolha dos artistas. Não por falta de qualidade dos artistas convidados, mas pela falta de aposta na “prata da casa”. Não concebo que numa terra com tantas tradições tauromáquicas, a Tourada Cidade do Montijo não seja materializada numa oportunidade para os artistas montijenses brilharem na sua Praça.

Actualmente, o Montijo, possui, talvez, a par com Santarém, a maior e mais bem apetrechada Praça de Toiros em actividade do País, devido às obras do Campo Pequeno e à inactividade da Praça de Cascais.

Possui ainda dois grupos de forcados, a Tertúlia Tauromáquica e os Forcados Amadores do Montijo que, apesar de se encontrarem longe da forma que atingiram nas décadas de 60 e 70, são dignos representantes do Montijo em todas as Praças do País onde actuam.

Natural do concelho, é, ainda, o cavaleiro profissional Luís Rouxinol, com provas dadas a nível nacional e, quem sabe, um dos grandes triunfadores da actual temporada. Tudo isto, sem falar do jovem cavaleiro praticante Gilberto Filipe, que se afigura como um grande talento do toureio a cavalo nacional.

Se juntarmos a afficción de milhares de montijenses que, em momentos decisivos se sabe unir em torno de um objectivo, como o demonstrou, em 1957, no finaciamento e construção em tempo record da Monumental Amadeu Augusto dos Santos, temos todos os ingredientes para necessários para a realização de uma tourada inteiramente preenchida por artistas montijenses.

Infelizmente, não foi este o raciocínio que presidiu à escolha do cartel pelos actuais concessionários da Praça de Touros do Montijo, a empresa Tauro Arte, nem foi esta a contrapartida exigida pelo executivo socialista do Montijo, na atribuição do patrocínio ao evento.

Aliás, é curioso analisar a posição incongruente da Câmara Municipal que, por um lado, patrocina com milhares de euros a tourada e, por outro, subsidia as duas associações de forcados do Montijo, sem contudo garantir condições de actuação dessas mesmas associações perante o público montijense, os contribuintes líquidos desses subsídios.

Será que a Câmara do Montijo, tal como o concessionário da Praça de Touros, foi sensível ao argumento de não convidar os artistas montijenses para estes não fazerem má figura?...

Não haja enganos. Má figura faz a Câmara do Montijo ao patrocinar um evento de comemoração dos 18 anos de elevação do Montijo a cidade desprovido de artistas montijenses, à excepçãp do cavaleiro praticante Alvarito Bronze. Ao não assegurar a oportunidade dos artistas montijenses actuarem na sua Praça, uma das melhores do País, não está a incentivar o seu desenvolvimento e está a defraudar séculos de tradições tauromáquicas das nossas gentes.

Por mim, só espero que o erro não persista no próximo ano. Termino com uma citação de Joaquim Baldrico incluída no prefácio de “As Praças de Touros do Montijo”: o Montijo será tanto maior quanto maiores forem as suas tradições. Olé!

Publicado em Jornal do Montijo, 29/08/2003
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