quinta-feira, julho 08, 2004

 

Os Espinhos da Revolução

Na passada semana celebraram-se os 29 anos do 25 de Abril. Esta semana comemora-se o 1º de Maio, uma das conquistas da revolução de Abril. A altura é mais do que propícia para a reflexão dos impactos do 25 de Abril na sociedade portuguesa. De uma forma aberta e frontal, sem complexos, sem medos e sem cedências a sentimentalismos e aventuras românticas. Analisando os factos e os seus impactos no Portugal de hoje de forma racional e coerente.

Basta de discursos ocos e repetidos ano após ano, por conveniência ou por reverência. Se, por um lado, os jovens que como eu não assistiram à revolução, podem ser acusados de não terem passado pela experiência, têm por outro lado, um estatuto de desprendimento e lucidez não toldada pela intervenção directa, que lhes permite mais facilmente o distanciamento e a imparcialidade necessária a uma reflexão séria e honesta sobre este tema.

Assim, e fazendo uso de uma ferramenta simples da Economia, a análise custo-benefício, pode-se concluir que, apesar de favorável à libertação de Portugal do regime corporativo de Salazar, a forma encontrada para o fazer – a revolução de Abril – foi decerto bastante prejudicial para o futuro de país, e que ainda se reflecte negativamente nos dias de hoje.

Senão vejamos, em termos de benefícios directos, o 25 de Abril trouxe-nos 3 grandes conquistas: a liberdade em termos de expressão, associativismo e de acção, o fim da guerra colonial que ameaçava eternizar-se e a consciência solidária de que o futuro da pátria dependia do que conseguíssemos ser como povo. Enquanto que este último fenómeno deu origem a manifestações socias interessantes como a mobilização de jovens estudantes e licenciados para a província com o objectivo de alfabetizar e garantir os serviços mínimos de saúde a populações desfavorecidas, o que é facto é que esses esforços rapidamente desvaneceram e cessaram. Quanto à guerra colonial, consta que Marcelo Caetano teria já encetado contactos com os líderes dos movimentos independentistas das colónias com o objectivo de terminar o conflito e quanto à liberdade, não é sequer necessário referir os excessos que dela surgiram no período do PREC...

Em termos de custos, os verdadeiros espinhos da revolução, divido-os também em 3 grandes categorias: as nacionalizações e a desestruturação da estrutura privada do país, a descolonização não planeada e a perda (no seu sentido mais amplo) do Império Colonial e o fim do ciclo de ouro de crescimento da economia portuguesa, iniciado em 1960 e terminado abruptamente em 1974.

As nacionalizações privaram o Portugal de hoje dos poucos grupos económicos sólidos, criados e sedimentados durante a época de Salazar, especialmente no que diz respeito ao sector financeiro e de indústrias pesadas, obrigando à fuga de capitais e gestores para o estrangeiro. Adicionalmente, arruinaram pequenos produtores privados que viram as suas terras e fábricas confiscadas pelo Estado. O vergonhoso processo de descolonização não garantiu a dignidade dos portugueses que residiam nas Colónias e o estabelecimento de relações privilegiadas entre Portugal e os PALOP, ao contrário do exemplo do Reino Unido com a criação da Commonwealth. O crescimento económico alcançado pelo nosso país entre 1960 e 1973 (o maior da Europa e apenas ultrapassado por três países no mundo: Japão, Coreia do Sul e Singapura) também foi comprometido, inicialmente pelo choque petrolífero, e posteriormente pela desorganização total da estrutura produtiva resultante do 25 de Abril.

Deste modo, concluo, afirmando que parte dos méritos do 25 de Abril foram ofuscados pelos excessos cometidos e que Portugal teria beneficiado muito mais deste salto para a Democracia se tivesse enveredado por uma solução de transição democrática semelhante à que ocorreu em Espanha, sem rupturas estruturais, sem excessos e extremismos de esquerda e com um grande sentido de Estado.

Esta é a visão racional e factual dos acontecimentos, a outra perspectiva, saudosista e irracional, deixo-a para os vendilhões do templo.

Publicado em Jornal do Montijo, 01/05/2003

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